Have you forgotten how to love yourself?
(Have You Forgotten - Red House Paintes)
Encontrei aqui umas coisas suas. Tem uma cartinha que você me deu há muito, muito tempo. A vida era tão boa. Ainda o é, acredito. Os risos bobos, as horas conversando pelas lanchonetes. Mas agora não há mais você. As conversas estão menos engraçadas, desde que você se foi. Sinto sua falta. Da pessoa que você era. Das coisas bonitas que fazíamos para os outros, pelo simples prazer de receber um sorriso. Nossos amigos estão mais sérios sem você. Agora a gente anda falando mais de política e noticiários. Somos um grupo civilizado de adultos. Adultos, José, isso que somos. Tive uma ou duas notícias não muito boas de você. Coisas que, infelizmente, não me surpreenderam. Talvez porque você sempre compartilhara comigo o futuro que você queria pra você. Esse mesmo, que eu sempre disse que ia te destruir.
Eu sei que você é jovem, eu também sou. Mas e daí, Zé? O fato é que felicidade momentânea nunca deixou ninguém feliz de verdade, e pensar no hoje como último dia de nossas vidas, às vezes, só nos leva a estragar o amanhã que pode vir. Às vezes, é preciso sacrificar uma felicidade momentânea por uma duradoura. Claro que a felicidade duradoura pode não vir. Claro que o que amanhã pode não vir. Mas é claro também que excesso de prazer mata. Claro que, depois que a felicidade momentânea passa, deixa um vazio imenso. Claro que tudo nessa vida é uma grande incerteza, mas eu acho que esse seu Carpe Diem eterno te levará a uma queda. E o pior não é o fato de chegar ao chão, mas o fato de nunca chegar a lugar nenhum, José.
E então, José?
Uma hora a festa acaba, a luz apaga, as pessoas somem e a noite esfria. E te resta um vazio enorme. Uma vontade enorme de encontrar um abraço, um sorriso, um apoio. Você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? E então, José? Que haverá restado de você, depois de perceber que investiu toda sua vida numa felicidade passageira, que passou? Amará, protestará, fará versos vazios, carregados de uma dor que você mesmo buscou? Estará sem mulher, sem discurso, sem carinho. Já não poderá beber, porque estará com a saúde debilitada, tampouco fumar, depois de estourar os pulmões. Nem cuspir poderá. A noite pode esfriar, e o dia nem o bonde vir. E tudo estará acabando, fugindo, mofando. E então, José? Sua doce palavra, seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca, sua lavra de ouro, seu terno de vidro, sua incoerência, seu ódio, - e então? Seu dinheiro não é riqueza, José. É só dinheiro.
Você vai olhar pra trás quando isso acontecer, José. Vai querer voltar pra casa. Com a chave na mão, para abrir a porta, mas não existirá porta. Não existirá porta, porque já não existirá casa. Vai querer recuperar o amor daquela moça bonita de cabelos longos - ela te tratava tão bem. Mas ela já não ligará mais pra você. Você vai querer ir pra um lugar que ama, mas esse lugar não será mais o lugar que você costumava amar. E Se você gritasse, gemesse ou tocasse a valsa vienense, dormisse, cansasse, morresse... E se? Mas você não morre, você é duro, José!
Há cinquenta por cento de chance de o amanhã existir. Há, José. Então, você escolhe essa felicidade que acaba de manhã, ou a mansidão de uma felicidade menos intensa, mas bem mais verdadeira? Sozinho no escuro. Sem valsa, ou amor. Sem uma parede para se encostar, um banco pra sentar, um ponto de luz pra olhar. Sem cavalo preto que fuja do galope... Você marcha, José. É o que você faz agora, sozinho no escuro: marcha. Mas pra onde, José?
Uma amiga, José, que quer salvar você, assim como Drummond um dia quis.