16.3.12

Sabe, Zé...

Have you forgotten how to love yourself?
(Have You Forgotten - Red House Paintes)

Encontrei aqui umas coisas suas. Tem uma cartinha que você me deu há muito, muito tempo. A vida era tão boa. Ainda o é, acredito. Os risos bobos, as horas conversando pelas lanchonetes. Mas agora não há mais você. As conversas estão menos engraçadas, desde que você se foi. Sinto sua falta. Da pessoa que você era. Das coisas bonitas que fazíamos para os outros, pelo simples prazer de receber um sorriso. Nossos amigos estão mais sérios sem você. Agora a gente anda falando mais de política e noticiários. Somos um grupo civilizado de adultos. Adultos, José, isso que somos. Tive uma ou duas notícias não muito boas de você. Coisas que, infelizmente, não me surpreenderam. Talvez porque você sempre compartilhara comigo o futuro que você queria pra você. Esse mesmo, que eu sempre disse que ia te destruir.
Eu sei que você é jovem, eu também sou. Mas e daí, Zé? O fato é que felicidade momentânea nunca deixou ninguém feliz de verdade, e pensar no hoje como último dia de nossas vidas, às vezes, só nos leva a estragar o amanhã que pode vir. Às vezes, é preciso sacrificar uma felicidade momentânea por uma duradoura. Claro que a felicidade duradoura pode não vir. Claro que o que amanhã pode não vir. Mas é claro também que excesso de prazer mata. Claro que, depois que a felicidade momentânea passa, deixa um vazio imenso. Claro que tudo nessa vida é uma grande incerteza, mas eu acho que esse seu Carpe Diem eterno te levará a uma queda. E o pior não é o fato de chegar ao chão, mas o fato de nunca chegar a lugar nenhum, José. 
E então, José?
Uma hora a festa acaba, a luz apaga, as pessoas somem e a noite esfria. E te resta um vazio enorme. Uma vontade enorme de encontrar um abraço, um sorriso, um apoio. Você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama, protesta? E então, José? Que haverá restado de você, depois de perceber que investiu toda sua vida numa felicidade passageira, que passou? Amará, protestará, fará versos vazios, carregados de uma dor que você mesmo buscou? Estará sem mulher, sem discurso, sem carinho. Já não poderá beber, porque estará com a saúde debilitada, tampouco fumar, depois de estourar os pulmões. Nem cuspir poderá. A noite pode esfriar, e o dia nem o bonde vir. E tudo estará acabando, fugindo, mofando. E então, José? Sua doce palavra, seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca, sua lavra de ouro, seu terno de vidro, sua incoerência, seu ódio, - e então? Seu dinheiro não é riqueza, José. É só dinheiro. 
Você vai olhar pra trás quando isso acontecer, José. Vai querer voltar pra casa. Com a chave na mão, para abrir a porta, mas não existirá porta. Não existirá porta, porque já não existirá casa. Vai querer recuperar o amor daquela moça bonita de cabelos longos - ela te tratava tão bem. Mas ela já não ligará mais pra você. Você vai querer ir pra um lugar que ama, mas esse lugar não será mais o lugar que você costumava amar. E Se você gritasse, gemesse ou tocasse a valsa vienense, dormisse, cansasse, morresse... E se? Mas você não morre, você é duro, José!
Há cinquenta por cento de chance de o amanhã existir. Há, José. Então, você escolhe essa felicidade que acaba de manhã, ou a mansidão de uma felicidade menos intensa, mas bem mais verdadeira? Sozinho no escuro. Sem valsa, ou amor. Sem uma parede para se encostar, um banco pra sentar, um ponto de luz pra olhar. Sem cavalo preto que fuja do galope... Você marcha, José. É o que você faz agora, sozinho no escuro: marcha. Mas pra onde, José?

Uma amiga, José, que quer salvar você, assim como Drummond um dia quis.

4.3.12

Dividimos uma vida, e a vida dividiu-nos.

"Por que você gosta tanto dele?"

“Ele ri. Ri torto, de um jeito bonitinho, só dele, com a maior simplicidade do mundo. Ele é como uma dessas brisas, sabe? Que você fecha os olhos quando sente? É, ele é uma brisa que a gente fecha os olhos quando sente.  Ele tem olhos atentos, intensos. Olhos de quem ama até mesmo quando o amor deixa de existir. E aí sofre. Ele tem cara de menino que sofre por amor. Ele tem cara de menino que não merece qualquer menina. E eu gosto do jeito como ele faz caretas. Isso me faz rir. Sei lá, gosto bastante também quando ele fica com vergonha, e aí fica com os olhinhos meio perdidos. E eu gosto de quando ele perde a fala comigo. E espera de mim salvação. E eu só admiro, como quem olha uma obra de arte. Isso que ele é pra mim: uma obra de arte. E eu odeio quando ele chora. Quando ele precisa muito de mim ao lado dele, e eu não posso estar lá. Odeio quando sou impotente. Odeio não poder retribuir todas as coisas que ele já fez por mim, sem pedir nada em troca. Odeio não estar lá. Acho que isso resume tudo. Odeio não ser real e essa coisa toda. Ele não ser real também.” Ela sorri. Os olhos secos, mas a expressão carregada de emoção. “Poxa, às vezes me pergunto se é pedir demais, se é querer demais. Às vezes me pergunto o que falta, o que poderia ser diferente. Tantas possibilidades. Tantos ‘se’s e ‘talvez’s que... Sabe, parece um cisco. Um cisco na alma, ou seja lá o que você chama. A realidade meio que assusta a gente. Sei lá. Assusta mesmo.Sabe, a gente nasce e cresce achando que o mundo é um lugar perfeito e que todas as pessoas são felizes e aí a gente vai crescendo e vai percebendo as falhas em inúmeras coisas e se sente meio perdido. Acho que todo mundo se sente perdido de vez em quando. Às vezes tudo aquilo que a gente acredita em se perde, sabe como? E aí a gente tem que procurar, sei lá, coisas novas pra acreditar. E não acreditar em nada deixa um vazio infinito, sabe Deus aonde. Tudo é tão errado. E é difícil perceber e admitir tal fato: temos de abrir mão de algumas coisas, não é possível ter tudo, e, por mais incrível que uma pessoa seja, ela vai te machucar, nem que seja uma vez. É tipo aquele menestrel, do Shakespeare e coisa e tal. Ele fala muita verdade naquilo lá. Muita coisa que só começa a fazer sentido depois. Depois que você passa por muita coisa. Ou acha que passou por muita coisa, quando não passou por nada ainda. De qualquer forma, eu nem me lembro mais qual foi a sua pergunta.”
O avô sorri, tímido.
 “Perguntei por que você gostava tanto desse menino.”
“Ah, o senhor já consegue entender?” Ela ri, e encara o chão.
“Sim, porque também amo.”

it's part of me, apart from me

"Não era pra ser. Quando as coisas não dão certo, é porque não foram feitas pra dar. Eu te perdi tantas vezes, de inúmeras formas diferentes. Senti sua ausência por tantos dias, e por tantos dias... Tudo que eu queria era correr para um abraço seu e me sentir protegida do resto do mundo. Eu não sei se é egoísmo meu - talvez toda forma de amor o seja -, mas eu queria você sempre comigo, construindo comigo uma coisa que eu não sei se foi realmente destinada a mim. E a cada dia, penso que não. Que o que foi destinado a mim foi dar suporte ao outro. Ser sempre uma coadjuvante. Você mesmo gostava de me dizer isso, que eu me esforçava para ser coadjuvante. Mas eu não sei ser de outro jeito. Demorei pra aceitar que eu e você nunca daríamos certo. Mas aceitei. Aceitei o fato de que não existe, hoje, ninguém pra mim. De que talvez nunca exista - cheguei aos 50, quê mais se pode esperar? Mas não me desespero. Sou sensata agora. O tempo me fez bem. Na verdade, ele sempre faz. A vida não gira em torno do amor. A vida não gira em torno da carreira. A vida, não sei, acho que não gira. Faz um movimento retilíneo. Vai. Passa. Passa amor, passa carreira. Passa. A gente faz tanta coisa errada, a gente faz tanta coisa certa. E então morre. E agora, quando me vejo cada vez mais próxima disso, reavalio minha vida. Amei muitas pessoas fraternamente. Por poucas me apaixonei. Perdi tanto. E, dentro das coisas que perdi, sem que fossem pela morte, está você. Você. Esse grande vazio que você foi se tornando. Um vazio que tentei muito cobrir, de inúmeras formas, e nunca consegui. Um vazio que eu fui me acostumando à. É como se você tivesse feito uma enorme bolha de ar no meio da minha casa. Tentei estourá-la, de inúmeras formas, mas nada adianta. Então, resolvi reformar minha casa, de forma que essa bolha fizesse parte da decoração. Só que foi bem aqui, no peito. Uma grande bolha. E resolvi te escrever. Te dizer que nunca esqueci da vida que partilhamos, e daquela que sempre sonhamos em partilhar e que nunca tivemos a oportunidade. Essa é uma carta sem objetivo nenhum. É um desabafo. Uma coisa que você vai ler e, no máximo, sentir pena de jogar fora. Eu queria só dizer também que... Se eu pudesse, consertaria o mundo inteiro. De forma que eu e você pudéssemos agora estar indo a uma festa de formatura, de um dos nossos filhos, juntos. Mas talvez isso nem consertaria nada, então, tudo bem. Tudo bem não estar bem. A solidão, não sei, tem me assustado. O nosso objetivo sempre foi mesmo procurar a infelicidade, não é verdade?  E ainda passamos a vida achando que estamos buscando a felicidade. Pobre de nós. Era só isso. Guarda aí, num lugar bonito. Não a matéria, que essa vai embora- é clichê, eu sei, mas guarda aí num lugar onde você possa sempre lembrar: Eu amo você. Eu sempre amei. Eu sempre vou amar"

"A gente se perdeu. E sim, foi por uma força maior. Porque lutamos, porque fizemos tudo. Mas tudo juntos dava errado. Era o preço a se pagar. Fizemos o certo, penso eu. Guardar o amor num lugar vazio e bonito, e viver com o resto do coração.Sábios, para dois jovens. Velhos, sempre fomos velhos. E agora, você me surpreende com uma carta carregada de sentimentos, moça, que você sempre se recusou a admitir para esse moço aqui. Moços, somos moços agora. Talvez, aos noventa, estaremos nos encontrando num aeroporto qualquer: eu e você. Duas almas que nunca deveriam ter se encontrado, mas que queriam nunca ter se separado. Atravessamos tudo isso. É como se eu e você ainda tivéssemos ficado naquele restaurante do hotel por muito tempo, quando nos conhecemos. Rindo alto, comemorando o casamento do meu irmão e da sua amiga. É como se você ainda estivesse olhando pra mim, na recepção do hotel, prestando atenção na música que eu te cantava.  'But I won't turn my face and look away/ I still care about you but you're desperately lost /And you're hurting us all/ You don't know the cost'. Eu te amava. Você me amava. E a partir de então, eu nunca poderia imaginar minha vida sem você. Eu não queria. Mas então, tudo começou a me puxar pra longe. E tudo que eu sempre via era seus olhos cheios de lágrimas. Eu te causei tanta dor. Eu doía tanto. O que você faz é o que você faz e ponto. É cruel, você não tem a chance de acertar as coisas imediatamente. E o tempo não perdoa. E quase sempre, 'depois' é sempre muito tarde. Eu tive que te deixar, o mundo precisava de mim, e o bem coletivo, na maioria das vezes, implica no sacrifício do bem de um indivíduo. Você sabe, eu sei. Foi tão difícil. Ainda é, pensar em tudo que queríamos ser e que nunca seremos. Eu nunca quis fazer nada de grandioso pelo mundo. Eu nunca quis ser Gandhi, ou Luther King, ou Jesus. Eu só queria ser alguém. Ser um bom vizinho, um bom marido, ajudar as pessoas sem esperar nada em troca. Mudar o mundo que me cercava e esperar que essa atitude inspirasse o mundo a ir mudando. A gente sempre pode ser melhor. É como se eu tivesse demorado 25 anos para sair daquele hotel em que eu te conheci. E quando eu sai, eu conheci outra pessoa. Alguém que construiu comigo uma vida inteira. Alguém que a vida não quis que eu deixasse. Eu não sei o que mudou pra você. Eu ainda te amo também. Só que... Eu não sei explicar. Isso ficou trancado. É um amor fraterno agora. Quero que você fique bem, que esteja em paz. O amor nunca acaba, só se torna outra coisa, lembra? Você costumava dizer isso. Guarda isso também: nunca haverá um amor tão puro quanto o que eu tive por você. Tão sincero. Tão... Amor. No sentido mais lindo que essa palavra possa ter. Mas que acabou. Para nós dois. Saímos do hotel, enfim. Demos adeus, estamos indo pra casa. Pensa assim. Temos tanto o que viver ainda, eu e você. E o tempo sempre tende a melhorar as coisas. Quanto à infelicidade, é a mais pura verdade. Mas espero que você fique bem. Você é forte. Por isso tá me escrevendo. Foi forte por muito tempo e agora tudo tá demais aí dentro. O tempo vai te trazer motivos para sorrir novamente. Ele sempre traz. Solidão, deixa pra lá, ela não vai te atingir. Para de procurar, a felicidade não foi feita pra ser encontrada - se você procura, acha só, como você disse, infelicidade. A felicidade vai chegar. Ela já esteve em você, sabe o caminho, vai voltar. E você vai me escrever, dizendo como as férias em Madrid estão o máximo."

"As férias em Madrid estão o máximo! Brincadeira... As férias em Atenas estão o máximo. ATENAS! A-TE-NAS. Estou realizando um sonho, você sabe. Sim, felicidade veio. Não veio em forma de ninguém. Veio na solidão, vagando e eu a abracei. To cuidando da saúde e to aproveitando pra saber, saber muito! Tentando, como você disse, mudar o mundo a minha volta. Éramos tão caducos, e agora, somos adolescentes irresponsáveis, quem diria! Espero que você esteja bem. Hoje faz 20 anos que não nos vemos! O tempo passa rápido... Bom, vou conhecer mais a terra em que viveram meus maiores heróis. Um forte abraço!"

"Eu não posso acreditar! Eu estive na sua cidade, mas você estava em Atenas! É engraçado como não é. Não vai ser.  Pelo menos, nunca teremos um adeus. Estou te mandando um cartão postal de Barcelona. Estive lá por esses dias e achei esse a sua cara. Curta Atenas!! Os gregos são bonitos, segundo minha filha... Fica bem, tá?"

26.2.12

Estranha sensação

O bar estava ficando vazio. Ele estava meio tonto, perdido. Perdido era a característica que mais era atribuída à ele ultimamente. Ele sentia um medo enorme do futuro, uma vontade enorme de sair correndo para o colo da sua mãe e pedir pra ela consertar o mundo inteiro pra ele. E ri de si mesmo. Eu estou bêbado, pensa. E tem uma enorme vontade de chorar. Pede outra dose. Uma menina se aproxima. Cabelos loiros, alta. Parece com a Laura, sua Laura. Você parece a Laura, ele diz. Ela olha pra ele e ri. Sou quem você quer que eu seja, disse ainda sorrindo para ele. Ele sorri de volta, mas ela não era a Laura. Você não é a Laura, teve esse cara, um cara que tinha bebido demais, e aí ele tava voltando pra casa, depois de uma festa ou algo assim, e a Laura tava vindo do trabalho, ele a matou num acidente, e eu tenho a estranha sensação de que ela não vai voltar, ele diz e começa a chorar. Ela o olha assustada, e olha para baixo. Está chorando, ele pensa. Ela esta comovida com sua história. Ele se aproxima. A moça que parecia com a Laura, mas não era a Laura coisíssima nenhuma, está escrevendo seu número de telefone, e não está chorando. Ela entrega o papel à ele. Ei, entrega àquele cara, sentado na mesa 5, diz. Ele está surpreso. Surpreso não, está magoado. Magoadíssimo. Ele havia decidido, segundos atrás, que gostava muito da menina parecida com a Laura, e agora ela está flertando enquanto ele fala. Ele amassa o papel e joga nela. Não quer nem saber, não gosta mais dela e quer magoá-la tanto quanto ela havia magoado-o. Eu não gosto mais de você, diz. Deixa o dinheiro que pensa ser o suficiente na mesa e sai do bar. A noite o espera, a vida o espera. O futuro sem a Laura esta ali, abraçando-o, e ele sorri com o vento em seu rosto. Cambaleia até um táxi. Acaba de salvar a vida de uma outra Laura, que pertence a outro Gustavo. Sente-se bem por isso.

20.2.12

Solidão menos infeliz

Não teve adeus. E foi melhor assim.

Há encontros que não foram feitos para ser o primeiro. Sabe-se lá por qual força maior, não foram. Foram feitos pra ser apenas o único. E, mesmo que aconteça tanto amor nele, nada vai passar daquele momento. Não tem realmente um porquê. Ninguém quis dizer adeus, ninguém quis ir embora, mas a vida separou essas duas vidas. A própria vida foi levando um do outro devagar. Eles perceberam, como não poderiam? Mas o que poderiam fazer? Sabiam que iam para lugares diferentes. E nenhuma outra força os puxava para perto.
Tudo começara muito bonito, assim como terminara. Uma conversa. Uma conversa boa de se ter, que nunca se quer terminar. Eles estavam em sintonia. Quando ela levantava o braço direito, o esquerdo dele fazia um movimento parecido. Era como se, sem querer, fossem um espelho do outro. Havia, inacreditavelmente, muita leveza ali. Paz. Acabou com um "prazer em te conhecer". Exatamente como deveria acabar. Não era tchau, não era uma despedida, elas doem tanto. Só queriam dizer ali, sabendo que nunca mais se veriam de novo, que foi bom. Que eles seriam guardados, um na memória do outro, com um carinho enorme. Saudade, eventualmente. Eles seriam um para o outro, aquela carta carregada de carinho, que fica no fundo da gaveta. Ela já não vai mudar nada, ou trazer nada, mas não se consegue jogar fora. Pelo amor que há dentro dela.

Rubem costumava dizer "que importa que uma estrela já esteja morta se ela ainda brilha no fundo de nossa noite e de nosso confuso sonho?''. Ele era a estrela morta cuja luz ainda chegava no céu dela. E vice versa. Triste dizer você é minha estrela morta. Bonito ser a estrela morta de alguém. Bonito ter uma estrela morta. 

Eles não se encontraram de novo. Nem houve telefonemas. Nada. Muito menos cartas. Ele não sabia anda dela, além do nome. E ela o mesmo. A vida, essa força maior, deveria determinar o futuro. Sentiam saudade, de vez em quando, pois estavam longe, viam coisas diferentes. O sol se punha em horários diferentes para eles. Falavam em línguas diferentes. E, mesmo assim, com todas as controvérsias, pensavam um no outro. E nunca, por nenhum segundo, desejaram nunca ter conhecido o outro. Não importava para eles por quê o encontro aconteceu, ou por quê eles dois não puderam ficar juntos. Só importava para quê tinham se conhecido. E eles descobriram. É perceptível quando eles sorriem.
 Mas não ameis, nunca ameis à distância! 
Esse seria meu único conselho, se amar fosse voluntário.

26.11.11

Balaclava

and i won't close my eyes
'til i understand or go blind
(Thrice - Stare At The Sun)


Primeiro o pó branco. Ao fundo, as mulheres correm segurando a barra do vestido, procurando um sapato perdido ou a pena do chapéu. Ele descansa a mão sobre a penteadeira. É adiantado, gosta de fazer tudo com calma. Pega o pincel de ponta fina e tinta guache azul. Fecha o olho esquerdo e contorna a pálpebra, depois faz o mesmo com o direito. Abre os olhos castanhos. Pisca umas vezes, tentando ver sua arte. Agora limpa o pincel num pedaço de papel e pega a tinta vermelha para contornar a boca.

Seu suspensório colorido, sua camisa de bolinha, seu chapéu de três cores, seu sapato enorme e seu nariz vermelho. Pronto. Olha-se no espelho e ensaia sorrisos. Sai do camarim, sobe no palco. Há riso, crianças. Tanta alegria que termina em duas horas de espetáculo. Seu numero é rápido, umas piadas sem graça, uns tombos propositais. Risos. Gargalhadas. Sons. Sua cabeça prestes a explodir. Mais risos, mais balas, mais palhaçadas. Seu irmão tem a técnica. É bom. Gosta do que faz. Ele não.

Sai do palco com um sabor amargo na boca. Acende um cigarro. Depois de fingir felicidade para cinquenta pagantes, tira o nariz vermelho e o deixa pendurado no pescoço. Anda pela rua, ainda com o rosto pintado. É tão mais um, ele. Conta piadas que não são dele, não é capaz de chamar a atenção do público, não ama o que faz, não tem muita historia pra contar. Sabe que os aplausos que recebe, não são pra ele. Vive na sombra de alguém. Alguém que ama, e como ama, mas que o acostumou a não brilhar.

Senta no meio fio. Sua vida é um amanhã que nunca vai chegar. Um ontem que nunca aconteceu. Um hoje de mentira. Ele não é divertido, não sabe fazer nada de especial. Sua presença nunca é solicitada. Quer dizer, exagero dizer nunca, é solicitada sim, quando não há outras presenças. Ele chora. As pessoas começam a sair do circo. Ninguém percebe a presença dele, confirmando sua tese. Então vem uma menina.

- Pai, palhaço também chora!

Ele apaga o cigarro. Tenta rir, mas seus olhos não deixam. Ela solta a mão do pai e o abraça.

- Chora não. Quer uma bala?

Ele não consegue dizer nada. Chora mais. Esse era seu primeiro abraço. Abraço mesmo, não esse contato por conveniência. Ela deixa uma bala nas mãos dele e vai embora de mãos dadas com o pai.

- É, palhaço também chora. – Diz e sorri. – E como dói, menina, sorrir quando se quer chorar.